domingo, 31 de maio de 2015

BOCEJOU PERDEU


Com disputas programadas para o início da madrugada, a Olimpíada de 2016 obriga os especialistas em fisiologia de alto rendimento a reinventar a rotina dos atletas

Foto  FORA DO RIO - Será quase como nadar em um fuso horário de outro país”, diz Cesar Cielo(Ivo Gonzales/Getty Images)

A Olimpíada de 2016, no Rio, terá um ineditismo - dezenas de provas decisivas serão realizadas no início da madrugada, entre elas finais de natação, vôlei de quadra e de praia. O horário atípico foi estabelecido para atender às exigências das emissoras de televisão dos Estados Unidos detentoras dos direitos de transmissão do evento. O objetivo nada dissimulado é fazer com que os telespectadores americanos possam assistir ao vivo às competições, em um horário ao redor de 10 da noite, nunca muito mais tarde. Como a Olimpíada, além de um espetacular show de esportes, é uma festa de imagens e também de dinheiro pago pela TV, a decisão é irrecorrível. Ela trará desconforto não só para os brasileiros nas arquibancadas, dado o horário avançado, mas também - e sobretudo - para os atletas, ha­bi­tua­dos a uma rotina vespertina de treinos e preparação.
Numa modalidade em particular, a natação, há preocupação. Os nadadores de excelência não estão acostumados ao ritmo noturno. Nas grandes competições, entram na água nas etapas eliminatórias pela manhã e disputam as finais no máximo até 21 horas. No Rio, já será outro dia e eles ainda estarão brigando pelo pódio. Diz Ricardo de Moura, superintendente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos: "O atleta não está preparado fisiologicamente para ter bons resultados no período da noite". Trata-se, agora, de trocar literalmente o dia pela noite, sem perder os milésimos de segundo que separam um campeão olímpico de um coadjuvante.
Em uma rotina normal, os nadadores costumam dormir por volta das 10 horas da noite e acordar às 6 da manhã. Na Rio 2016, eles dificilmente irão para a cama antes das 3 horas da manhã, considerando os compromissos depois dos jogos - testes antidoping, tempo para alimentação e para chegar à Vila Olímpica. Para Cesar Cielo, campeão olímpico dos 50 metros livres em 2008, recordista mundial dos 50 e dos 100 metros livres, "será quase como nadar em um fuso horário de outro país". Thiago Pereira, prata nos 400 medley na Olimpíada de 2012, também se assusta. "Nunca passei por isso."
E como passar? As primeiras medidas para adaptar o organismo dos atletas à mudança drástica começam a ser desenhadas. A principal busca é a alteração da síntese do hormônio do sono, a melatonina. Produzido à noite, o composto é a chave do relógio biológico. De forma a modificar a fabricação do hormônio, os atletas deverão usar, por exemplo, óculos escuros e dormir em quartos com janelas vedadas. As resoluções, no entanto, são paliativas. "Será muito difícil melhorar ou manter o desempenho igual ao obtido durante o dia", diz Marco Tulio de Mello, especialista do sono do Comitê Olímpico Brasileiro. "Mas, como todo bom atleta olímpico é um espetáculo de superação e motivação, é certo que nos surpreenderemos."
A influência do sono (e a falta dele) no desempenho do esportista é hoje um dos temas mais recorrentes na ciência do esporte. "Sabemos que o relógio biológico é chave fundamental para as vitórias", diz Jorge Bichara, gerente de performance esportiva do Comitê Olímpico Brasileiro. No caso específico da natação, estudos mostram que o melhor horário para competir é das 5 horas da tarde às 8 horas da noite. É um momento em que o relógio biológico está afiado para esse tipo de esporte, que exige concentração nas largadas, explosão nas provas de velocidade e resistência nas mais longas, no auge do estado de alerta e eficiência cardiovascular.
Uma noite de sono reparadora é responsável pela síntese de hormônios essenciais ao rendimento. Nas fases mais profundas do sono, o cérebro trabalha para processar novas memórias, consolidá-las e conseguir armazená-las em longo prazo. É assim que os movimentos aprendidos durante o dia são fixados. À noite, durante o sono, o organismo também libera a produção do hormônio do crescimento GH e do hormônio masculino testosterona, ambos envolvidos na reparação e no ganho muscular, na densidade dos ossos e no vigor. O papel de uma noite bem-dormida no desempenho do atleta já foi calculado com exatidão. Estudos recentes conduzidos pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos, comprovaram: nadadores que dormem bem, no horário correto, têm um tiro de largada 17% mais preciso em relação aos que têm o sono alterado. No basquete, a eficácia nos lances livres é 9% superior entre os bem-dormidos. O bocejo pode subtrair medalhas em 2016.




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