sexta-feira, 26 de maio de 2017

29º TRAVESSIA A NADO DO ESTREITO DE BOSFOROS NA TURQUIA


"A água encontra o caminho." Um dos provérbios mais usados na Turquia, sobre como as coisas se ajeitam por si só, sem precisar de interferências, traduz a crença dos quase 500 estrangeiros que foram ao país em julho, em meio a uma crise institucional, para atravessar da Ásia à Europa, a nado.
Um mês antes da 28ª edição da travessia do estreito de Bósforo, um atentado terrorista havia matado 44 pessoas no principal aeroporto de Istambul, capital turca.
Uma semana antes do evento, as Forças Armadas do país tentaram tomar o poder. Áreas turísticas também foram alvo de bombas nos últimos anos.
No barco que leva atletas da costa europeia para a asiática, onde pularão na água e traçarão o caminho de volta, é difícil deixar de pensar que centenas de gringos indefesos em suas roupas de banho seriam um bom alvo. Mas o único estampido é o da arma que anuncia o início da nova prova.
Antes de começar, dois locais conversavam. "A melhor corrente, que vai te levar mais rápido para o outro lado, é a mais gelada", ensina Deniz Takip, 63, que há 20 anos cai na água todo verão.
Nos primeiros minutos da prova, a água vira uma verdadeira piracema, coalhada de braços e pernas batendo uns contra os outros.
No entanto, logo o competidor se vê sozinho no mar urbano. De um lado, castelos, rodovias e restaurantes. Do outro, a natureza ainda um pouco selvagem da Ásia. Bem no meio disso tudo, a tal corrente gélida.
São sete quilômetros de travessia que, com a ajuda da corrente a favor, são reduzidos a "minguados" 4.000 metros –ou uma hora e meia no nado de alguém mais ou menos dedicado.
No meio da água cristalina, a fauna do encontro do mar de Mármara com o mar Negro. Sortudos relatam encontros com golfinhos –o projeto de atleta que fez esse percurso, porém, só cruzou com manadas de águas-vivas, de um tipo que não queima, e um peixe meio perdidão.
Em 1810, o poeta Lord Biron (1788-1824) fez o mesmo percurso. Mas, na época dele, não havia os jet skis e barcos que acompanham o trajeto. Caso o sujeito queira desistir, é só tirar sua touca e rodá-la que o socorro aparece.
A travessia ganhou caráter de evento oficial em 1989, com três dezenas de aventureiros caindo ao mar. Atualmente, são 1.500 atletas, um terço deles de fora da Turquia. É o único momento do ano em que navios param de cruzar o estreito, uma rota mercantil pela qual transitam bilhões de dólares e euros em mercadorias.


OLÍMPICOS
Atletas convidados, como o australiano Ian Thorpe, recusam-se a cair na água com os outros participantes. Afinal, a imprevisibilidade das correntes poderia fazer até um campeão olímpico (Thorpe tem cinco medalhas de ouro, duas de prata e uma de bronze) acabar perdendo para um nadador de fim de semana. O mar está sempre para azarões.
Se bem que é raro ter alguém ali desavisado. O Comitê Olímpico Turco, que organiza o evento, pede uma quantidade kafkaniana de documentos (a cópia do diploma de um professor de natação que ateste a capacidade do atleta é só um deles). As inscrições, feitas pela internet, esgotam-se tão rápido quanto ingressos para o show do Coldplay.
Os turcos usam a visibilidade da atração para reforçar seu viés olímpico. A dificuldade burocrática, a distância e a falta de divulgação tornam o evento quase virgem de brasileiros. O único outro inscrito do país, um dentista de Santa Catarina, cancelou a ida.
Saio da água com um quilo e um sonho a menos, tiritando. Mas é só frio mesmo, a paúra do terror se dissolveu na endorfina e nas águas do Bósforo.
TRAVESSIA TRANSCONTINENTAL DO BÓSFORO
Onde Istambul

Mais bogazici.olimpiyatkomitesi.org.tr 


Por CHICO FELITTI COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM ISTAMBUL



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