Para
pouca coisa. A um ano da Rio 2016, os Jogos de Toronto são ofuscados por uma
série de torneios mundiais quase paralelos — como os de natação, vôlei e
atletismo —, que oferecem mais chances de vaga para a Olimpíada e entregam
marcas muito mais expressivas
Fonte
Revista Veja
Foto
ÁGUAS CALMAS - A equipe masculina de polo aquático do Brasil — já classificada
para a Rio 2016, por jogar em casa — venceu sua partida de estreia no Pan,
contra o Canadá(Jonne Roriz/Exemplus/COB/VEJA)
Pode
soar arrogante, mas talvez não seja muito errado apostar que o momento mais
memorável dos Jogos Pan-Americanos de Toronto será o show de acrobacias e magia
sempre precisas do Cirque du Soleil, uma invenção canadense, na cerimônia de
abertura, na sexta-feira 10. Haverá algumas disputas emocionantes, choro em
profusão, e certamente boa parte da delegação de 590 atletas brasileiros subirá
ao pódio - torcendo para que os organizadores toquem o hino correto, porque na
cerimônia de hasteamento da bandeira nacional na Vila dos Atletas as caixas de
som emitiram as notas do cântico das Bahamas, levando os atletas a risos
constrangidos, antes de o erro ser descoberto.
Um Pan, qualquer Pan, sempre é
um torneio de marcas pouco expressivas, espremido entre competições mais
decisivas. Do ponto de vista brasileiro, o torneio de Toronto carrega um
paradoxo que o diminui ainda mais. Por anteceder a Olimpíada em casa, no Rio,
era de esperar entusiasmo suplementar. Mas não. Em muitas modalidades, o Brasil
tem vaga garantida por ser sede olímpica - ou seja, o bom desempenho no Pan
seria indiferente. É o caso do polo aquático masculino, que conquistou no mês
passado o inédito terceiro lugar na liga mundial, superando os Estados Unidos
na disputa do bronze (os dois primeiros lugares ficaram com Sérvia e Croácia),
e carimbou a vaga para o ano que vem. O vôlei também é vítima desse efeito
colateral - a seleção masculina chegou ao Canadá com um time reserva, mais
atenta às duras partidas da liga mundial. A equipe feminina, que o treinador
José Roberto Guimarães anunciara com força total, também decidiu viajar com um
grupo misto.
Em
esportes individuais, como o atletismo e a natação, a competição é contra o
relógio, em busca de tempos baixos. Como os atletas precisam alcançar índices
olímpicos, é fundamental ter mais empenho em competições entre os melhores do
mundo, que forçam resultados bons. "Nos Estados Unidos, ao atleta que já
tem índice para os mundiais é dada a opção de não disputar os Jogos Pan-Americanos",
revelou a VEJA o técnico Michael Ford, da Universidade Baylor, que trabalha com
uma das mais recentes revelações do esporte americano, o velocista Trayvon
Bromell, que não estará em Toronto. "É uma decisão sensata. Correr entre
os melhores atletas do mundo traz mais maturidade." Decisão semelhante
tomou o nadador Cesar Cielo. O atual tricampeão mundial dos 50 metros nado
livre decidiu abrir mão da competição continental para dedicar suas braçadas à
preparação para o Mundial de Esportes Aquáticos de Kazan, na Rússia, em agosto.
Dias antes do Pan, ele estava na França para encarar os adversários diretos por
uma medalha em 2016, entre eles Florent Manaudou, que o venceu nos Jogos de
Londres, em 2012.
"As
várias competições do calendário acabam por prejudicar um pouco a força do
Pan", admite o superintendente de esportes do Comitê Olímpico Brasileiro,
Marcus Vinicius Freire. O dirigente acredita que o novo patamar atingido pela
elite do esporte brasileiro exige um comportamento mais parecido com o que já é
praticado pelo comitê americano, que historicamente não envia aos Jogos Pan-Americanos
seu time de elite - o maior medalhista olímpico de todos os tempos, por
exemplo, o nadador Michael Phelps, nunca disputou um Pan. No passado, contudo,
quando as competições eram menos numerosas, a disputa pan-americana foi celeiro
de nomes que em seguida explodiriam para o mundo, como Mark Spitz (em Winnipeg,
1967) e Carl Lewis (San Juan, 1979), além de palco para o histórico salto de
João do Pulo na Cidade do México, em 1975.
Existem,
obviamente, exceções. Para o judô brasileiro, principalmente o feminino, a
competição serve de treinamento forte contra adversárias diretas na disputa
olímpica. Haverá, nos próximos dias, embates duríssimos entre Mayra Aguiar e a
americana Kayla Harrison, algoz da brasileira e medalha de ouro em Londres;
entre Maria Portela e a colombiana Yuri Alvear, a atual campeã do mundo; e
entre Rafaela Silva e a americana Marti Malloy. Em alguns casos, entra em ação
o componente psicológico. Torben Grael, treinador-chefe da equipe brasileira de
vela, decidiu que seria bom para sua filha, Martine, e a parceira de barco
dela, Kahena Kunze, participar do Pan, mesmo que a disputa não seja forte
tecnicamente. "O Torben não queria que a Martine vivesse em casa, no Rio,
a primeira experiência em competição multidisciplinar, especialmente sendo
líder do ranking mundial e favorita à medalha", afirma Freire, do COB.
Trata-se, aqui, da convivência inaugural com a vitória (ou a derrota), tendo
centenas de outros esportistas ao lado.
O
retrospecto, tanto o recente quanto o histórico, sugere o necessário
distanciamento do frenesi criado pela chuva de medalhas do Pan, que virá,
inevitavelmente - ela não se repete na Olimpíada. Em muitos casos, as
conquistas foram exageradamente celebradas. Mesmo a vitória da seleção
masculina de basquete, em 1987, no Pan de Indianápolis, contra os Estados
Unidos, deve ser revisitada e posta em perspectiva. A equipe liderada por Oscar
Schmidt surpreendeu ao derrotar os americanos, mas o time adversário era fraco,
formado essencialmente por universitários inexperientes. Na Olimpíada seguinte,
o Brasil ficou em quinto lugar. Não foi ruim, mas não foi o pódio anunciado com
pompa e circunstância no ano anterior.
A
certeza de resultados irrelevantes no Pan parece ter servido de atalho para que
os moradores de Toronto pouco se interessem pelo torneio. Quase metade dos
ingressos não foi vendida. Há muito mais entusiasmo com as notícias dos
Raptors, a equipe de basquete que disputa a NBA, com o Blue Jays do beisebol e
com o time de futebol, o Toronto F.C., que participa da liga americana. O Pan
pouco mudou a rotina da cidade. A Vila Pan-Americana, encravada em um local
turístico, o Distillery District, um centro comercial descolado, com a cara do
Meatpacking nova-iorquino, passa despercebida. A expectativa dos organizadores
é que Toronto, tendo realizado o Pan, mesmo opaco, possa depois ter o direito
de abrigar também a Olimpíada, como fez o Rio.











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